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Entrevista a Sousa, João

2010-05-21 | Entrevista a João Sousa


O Bolamarela.com teve a sorte de acompanhar João Sousa na conquista do seu 2º titulo internacional como profissional. Na semana em que venceu o IV Future Círculo de Lectores, em Valldoreix, João Sousa disponibilizou-se para

O Bolamarela.com foi ao encontro de João Sousa, um dos mais talentosos tenistas nacionais da actualidade, precisamente na semana em que ele conquistou o seu 2º titulo internacional. Simpaticamente, o jovem vimaranense, há alguns anos radicado em Barcelona, acedeu a conversar connosco. E deparámo-nos com um João Sousa muito maduro, bem ciente das suas capacidades e limitações actuais, e muito relaxado e sincero na hora de responder às nossas questões.

Antes de mais, gostaríamos de endereçar-te os nossos parabéns pela vitória de hoje - a entrevista decorreu depois da partida referente aos quartos-de-final do Future de Valldoreix, que o português venceu - e um abraço de toda a equipa do Bolamarela. Nós como muitos portugueses através do nosso site, vibramos com as tuas vitórias e entristecemo-nos com as derrotas. Felizmente, nos últimos tempos, temos tido mais motivos para sorrir. Sentes-te satisfeito com o rumo da tua carreira?

Obrigado. Sim, em geral estou satisfeito. É claro que poderia estar melhor em alguns aspectos, mas pouco a pouco vou crescendo e melhorando o meu jogo.

Hoje tiveste um jogo complicado, mas foste capaz de dar a volta e vencer...quais são agora as tuas expectativas para o que resta do torneio?

Hoje o primeiro set não me correu nada bem. Estava nervoso, como puderam ver, mas felizmente depois acalmei-me e fui capaz de vencer. Em relação ao que resta do torneio, gostava de poder ganhá-lo, ainda para mais estando a jogar em casa, no meu clube. (ndr: acabou mesmo por conquistar o título, o segundo internacional da carreira)

A esse propósito... resolveste jogar cá somente porque se proporcionou, porque era precisamente no sítio onde treinas regularmente, ou a aposta nestes eventos Future é para manter?

Não, não foi só por se ter proporcionado. A aposta nos Futures é para manter. Quero estabilizar o meu ranking, somar pontos e ganhar confiança antes de saltar definitivamente para os Challengers e deixar estes torneios para trás. Nas próximas 3 semanas vou jogar três Futures nas Canárias, onde defendo imensos pontos, porque ganhei um e fiz final e "quartos" noutros dois, e depois logo pensarei em Challengers.

Tens algum objectivo definido em termos de ranking mundial para o final desta temporada?

Não gosto de pensar muito em números. Procuro concentrar-me noutros aspectos do meu ténis e melhorá-los, sem pensar demasiado no ranking. É claro que ficaria satisfeito se terminasse o ano nos 200 primeiros, não o escondo, mas não é de todo uma obsessão. Preocupo-me sim, em melhorar o meu jogo.



Perfil como tenista

O teu talento é sobejamente conhecido e reconhecido. Contudo, nem sempre os resultados espelham todo o teu potencial e fica a sensação que isso se deve à parte psicológica...

É verdade, eu sei disso e tenho trabalhado bastante a parte psicológica do meu jogo. Aqui na academia há uma psicóloga, que é portuguesa (Ana Soares), e temos trabalhado bem juntos. Sei que me falta melhorar o aspecto psicológico para ganhar mais alguns jogos, mas sinto que estou bem melhor agora. Vocês viram o que aconteceu hoje, estive mal no primeiro set e reagi muito mal em alguns momentos. Depois cheguei a enfrentar break-points no início do segundo set, mas consegui dar a volta ao jogo. Há um ano atrás teria perdido 7-5 6-1, ou algo assim. Além do mais, é o 2º jogo que ganho em três sets esta semana e mesmo ontem, contra um grande amigo [Georgi Rumenov-Payakov], voltei a ter um jogo apertado, mas venci.

E em termos técnicos? Salta à vista de todos que tens muitas soluções...sentes-te um jogador completo?

Bom, a direita é sem dúvida a minha pancada de eleição e com o serviço também me sinto muito bem. A esquerda é que nem tanto, e estou concentrado em melhorá-la. Tenho trabalhado muito a esquerda, sobretudo a batida ao longo, que não é lá muito boa, e também a cortada.

E o jogo de rede? Já tens mostrado excelentes habilidades junto à rede, mas não o usas muito...

É verdade. O jogo de rede também é trabalhado e eu até costumava ir mais à rede, quando era mais novo. Tenho bastante confiança na rede, mas não sei, desde que vim para Espanha
e ganhei outra solidez no jogo do fundo do court, habituei-me a jogar mais atrás. Não é que eles [na academia onde treina] não nos incentivem a ir à rede, mas a verdade é que o faço menos agora.

E fisicamente? Embora sejas muito ágil, tens um aspecto algo "franzino"...

Fisicamente sinto-me muito bem. Nunca tive uma cãibra na vida, nem lesões complicadas, nada. Um pé torcido e uma semana e meia em casa foi o pior que me aconteceu, mas isso é um acidente que qualquer um pode ter. Aqui há excelentes condições e é dado um acompanhamento muito bom à parte física.

(Foi-nos confidenciado que o João supera por larga margem os restantes jogadores da academia, no que toca aos índices físicos. "Tem físico de top-100... sem dúvida!", revelaram-nos)


Estoril Open

Estiveste recentemente no Estoril Open. As coisas não correram lá muito bem, pois não?

Não, nada. Este ano não correu como eu estava à espera. Fiquei triste por ter perdido tão cedo.

Em contrapartida, há dois anos atrás, fizeste um torneio fantástico. Na altura, deslumbraste meio Portugal e a outra metade, obviamente no contexto tenístico, com o teu ténis. A verdade é que depois disso, nesse ano, não somaste grandes resultados. Foi complicado gerir as expectativas?

Sim, depois do Estoril Open tive seis meses muito maus. Foi complicado, porque pensei "Então chego à segunda ronda de um ATP [depois de passar o qualifying] e agora tenho de lutar tanto aqui nos Futures?". Achei que estava num patamar diferente, acima dos outros. Não fui suficientemente humilde. Aqui nos Futures é preciso lutar muito por todos os pontos, é uma guerra enorme. Mas por aqui todos têm de passar algum tempo, a menos que se seja um predestinado, como o Federer ou o Nadal. E às vezes é complicado, há jogadores bons que têm dificuldades em impor-se nestes torneios, porque é preciso lutar muito. Aqui em Espanha há o caso do Boluda, por exemplo. Tem feito segundas rondas, às vezes quartos-de-final, mas tarda em corresponder às expectativas nele depositadas.

Voltando um pouco atrás... acompanhaste de perto a edição deste ano do Estoril, nomeadamente a prestação do Frederico Gil?

Acompanhei, mas ao longe. Depois de perder, acabei por vir logo para aqui, para preparar o torneio anterior a este, mas fui seguindo pela TV e pela net e mandei-lhe uma mensagem depois a felicitá-lo. Acho é que foi pena o que aconteceu com o Frederico, pelo facto de não terem dado o devido destaque. Ele acabou por ter azar, porque o Benfica foi campeão e isso atirou para 2º plano o Estoril Open. É que foi um feito enorme e merecia primeiras páginas de jornais. Melhor só se ele tivesse conseguido ganhar, mas uma final de um ATP é algo fantástico, ainda para mais no torneio mais importante de Portugal.


Restantes portugueses

E os restantes portugueses, como tens acompanhado as suas carreiras e até onde achas que podem chegar?

O Gastão e eu somos grandes amigos. Éramos rivais, mas sempre nos demos muito bem. Ele teve uma fase bastante complicada, com as lesões no ombro e nas costas, e ainda se está
a habituar às exigências do circuito, mas agora está de volta e acho que é claro que tem ténis para rapidamente subir muito no ranking.

O Pedro Sousa é, como costuma dizer o meu pai, uma bomba prestes a explodir. Tem um talento enorme, mas faltava-lhe um pouco de cabeça e agora está muito melhor nesse aspecto. Nesse sentido, acho que a equipa do Cunha e Silva tem feito um excelente trabalho.

O Rui [Machado], que também já treinou aqui, está num momento de forma fantástico, a mostrar todo o seu valor e pode subir muito; o Leo também tem sido mais feliz e tem podido somar muito bons resultados; e depois há outros jogadores que aí estão na luta. O Martim Trueva, o Gonçalo Pereira, o Francisco Dias também ouvi dizer que joga muito bem, assim como o Frederico Silva, mas eu não os conheço muito bem pessoalmente. E, claro, há o Gonçalo Falcão, que também jogou aqui esta semana e que conheço bem. Tem muito potencial.


Taça Davis

Alguns destes jogadores conheces bem da Taça Davis. Já fizeste parte da equipa escalada para algumas eliminatórias e até tens um excelente saldo de vitórias/derrotas. Esperas voltar em breve à selecção?

É óbvio que gostaria de voltar, mas o Pedro [Cordeiro] é que decide quem convoca. Há muitos jogadores em boa forma e com ranking superior, que também merecem estar no grupo. O Pedro falou comigo e disse-me que ia olhar ao ranking para esta última convocatória [frente à Dinamarca], como fez noutras ocasiões, e eu disse-lhe que compreendia, que ele não precisava de justificar nada. Mesmo que ele não se baseasse no ranking, eu respeitaria qualquer opção dele.

Como é que vês o trabalho do Pedro Cordeiro à frente da selecção?

Acho que o Pedro tem feito um óptimo trabalho. A selecção tem é um problema de dimensão do corpo técnico. Estamos com aspirações a subir ao grupo I [da zona euro-africana, a segunda divisão do ténis mundial] e está-se a tentar aumentar o grupo técnico em alguns elementos específicos.

Quando te deslocas a Portugal, é frequente ver-te treinar com o Pedro Cordeiro. É a FPT que o põe à tua disposição, digamos assim, ou têm uma relação mais pessoal?

Não, não tem a ver com a Federação. O Pedro gosta muito de mim e eu também gosto muito dele, pelo que quando temos oportunidade trabalhamos juntos, em paralelo com o trabalho que desevolvo cá. Por exemplo, como disse há pouco, tenho trabalhado bastante a esquerda com o Pedro e ele incita-me a usá-la mais, mas às vezes não tenho a confiança necessária para pôr isso em prática em situações de jogo. Mas aos poucos e poucos vou trabalhando nesse sentido.

Já conversaram sobre a próxima eliminatória, no Jamor?

Não, ainda não falamos sobre isso. Sei que é no Jamor e em Julho, mas ainda falta algum tempo. Vamos lá a ver é como será com o público, que nem sempre adere muito a estas eliminatórias. É estranho, porque vemos o Estoril Open e está cheio de gente e depois, na Davis, há muito pouco público. Para o Estoril Open há muito marketing, veem-se cartazes na rua, e isso talvez ajude a chamar mais gente. E é uma organização do Lagos, sempre muito mediática.

É realmente estranho. As pessoas em Portugal gostam de ténis e têm cultura tenística e, inclusivé, apoiam muito os portugueses no Estoril Open, mas depois nas eliminatórias da Davis passam um bocadinho ao lado...

Sim, é verdade. E é pena, porque estão lá os melhores a defender as cores de Portugal.

Já alguns jogadores e mesmo o seleccionador referiram que no Sul a adesão é geralmente menor... partilhas dessa opinião?

Sim, no Norte as pessoas parece que aderem mais. Recordo-me bem da eliminatória com o Chipre, na Foz, de que gostei imenso.

Ainda assim, os principais eventos tenísticos em Portugal decorrem em Lisboa. No entanto, consta que se está a tentar negociar um torneio internacional no Norte...

Sim, em Guimarães, e as coisas estão bem encaminhadas. E o Pedro [Cordeiro] também está a tentar levar um para a Foz. Seria bom para o Norte ter um torneio forte, acho que seria merecido.

Tens ideia da categoria do torneio que está a planear realizar-se em Guimarães?

Em princípio, acho que deve ser um de categoria Challenger.


Vida pessoal

A nível pessoal, já estás aqui em Barcelona há vários anos...

Sim, estou cá há seis anos já.

Sentes-te catalão já?

(sorrisos) Não, não me sinto catalão. Mas já estou bem habituado à cultura, vivo cá, tenho cá namorada há quase três anos e sinto-me bem aqui.

Foi certamente complicado vir para cá sozinho, tão novo...

Foi muito complicado na altura, sobretudo os dois primeiros anos. Tive de concluir o secundário aqui, de forma que treinava de manhã e, quando era possível, ainda à tarde. Depois ia para as aulas, normalmente das 17h às 22h. Agora já concluí essa etapa e estou completamente focado só no ténis.

E a família, são muitas as saudades? Mantêm contacto regular?

Sim, todos os dias falamos. Os meus pais dão-me imenso apoio e isso é muito importante para mim.

Apesar da distância, também nós procuraremos seguir cada vez mais de perto a tua carreira, torcendo incondicionalmente por ti. Muito obrigado, João, pela tua disponibilidade e muitas felicidades não só para o que resta do torneio como também nos desafios que se seguirão.


Carlos Morais


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